A Chapada é feita de coisas antigas: serras mais velhas do que quase tudo que pisa sobre elas, e um tempo que anda mais devagar. É onde a terra se ergue e o céu desce mais perto.
Foi o brilho dos diamantes que trouxe os garimpeiros; foi a beleza que fez muitos ficarem. Rios cor de âmbar escorrem sobre pedras douradas e despencam em cachoeiras que se ouvem antes de se ver — a Fumaça, quase quatrocentos metros de queda que o vento transforma em névoa antes de tocar o chão. Grutas guardam águas de um azul impossível, e cada trilha termina num mirante que parece a beira do mundo.
Quando o sol se põe atrás do Morro do Pai Inácio, a Chapada troca de pele. O calor vira brisa, o dourado vira brasa, e então acontece o que poucos lugares no planeta ainda oferecem: a noite inteira, sem interferência, o céu se abre. Estrelas demais para contar, a Via Láctea como um rio de luz atravessando o escuro. Deitar no chão ainda morno e olhar pra cima, aqui, é um tipo de oração.
Onde o som encontra a serra
É por isso que a Chapada é palco. Aqui o som não se perde no vazio — ele volta. Bate nas paredes de quartzo, retorna pelo vale, se mistura ao barulho da água e ao silêncio enorme que mora entre uma música e outra. Dançar na Chapada é dançar dentro de uma catedral sem teto, feita de pedra, vento e estrela.
Um festival na Chapada não é um evento num lugar bonito. É um encontro entre pessoas e território, entre batida e montanha, entre o que é efêmero — a música, a noite, o abraço — e o que é eterno. Você vem pela música. Você volta diferente. Porque alguns lugares não se visitam: eles ficam ressoando dentro da gente.